domingo, 18 de abril de 2021

Roberto Campos, 104 anos.


Vivo fosse, o pensador Roberto Campos faria ontem, dia 17 de abril, 104 anos. Em sua homenagem, Luiz Alberto Souza Aranha Machado reproduziu trechos do discurso que Campos pronunciou em seus 80 anos:


Hoje, na data de seu aniversário, reproduzo alguns trechos do discurso por ele proferido no banquete de seus 80 anos, nas instalações belíssimas do Copacabana Palace.

Afinal, homenagear Roberto Campos nunca é demais. Assusta perceber, a partir dos trechos aqui reproduzidos, como avançamos pouco no sentido de transformar o Brasil num país mais desenvolvido.

***

Meus amigos, jovens e velhos. A melhor coisa que se pode dizer sobre esta festa de oitenta anos é que, por imperativo biológico, ela não pode ser repetida.

Cabe-me agora explicar por que me opus, sendo finalmente derrotado pela família e pelos patrocinadores, ao uso do smoking nesta festa. É que ainda não perdi a esperança de me tornar um líder popular. E também porque nunca me esqueci do conselho de Nelson Rodrigues, numa mesa de bar, no dia em que deixei de ser ministro do Planejamento, em 1967: “Roberto, nada se parece mais com um garçon do que um ex-ministro de smoking”.

Tendo vivido 80 anos, sinto que vivi mais de um século. Pois este século, segundo o historiador marxista inglês Hobsbawn, “foi um século curto”. Segundo ele, teria começado com a I Guerra Mundial, em 1914, que pôs fim à belle époque do livre cambismo e do padrão ouro. E teria terminado com o colapso do império soviético em 1991, o último dos grandes impérios a desaparecer. Para outros, e eu me filio a essa corrente, o século foi ainda mais curto, pois teria começado com a Revolução Comunista de em 1917, ano em que nasci, para terminar com a queda do Muro de Berlim em 1989. Este século foi chamado pelo marxisya Hobsbawn de A era dos extremos. Em linha paralela, o historiador liberal Paul Johnson descreve-o como o “século do coletivismo”.

Foi sem dúvida o mais violento da história humana. Duas guerras sanguinolentas e uma longa guerra fria de 40 anos, sob ameaça constante de hecatombe nuclear. Foi o século que assistiu à ascensão, paixão e morte de três grandes carniceiros – Stalin, Hitler e Mao Tsé-Tung. Em conjunto, esses facínoras acolitados por tiranetes menores, faturaram 150 milhões de vítimas, na ânsia louca de reformarem o ser humano. Estima-se que neste século curto ter-se-iam perdido, por motivação política, não menos de 170 milhões de vidas, mais do que a soma de todos os mortos em guerras, catástrofes, conflitos raciais e perseguições religiosas, desde a origem dos tempos. Foi também um século admirável em que se desvendou o poder do átomo e se descobriu a hélice da vida.

As duas criações do liberalismo do século XIX – o capitalismo e a democracia – experimentaram seus maiores desafios. O desafio coletivista de esquerda visava a substituir a democracia pela ditadura do proletariado; e o capitalismo pelo comunismo. O desafio coletivista de direita entronizava a ditadura do Füher e substituía o ideário do livre comércio pela obsessão da autossuficiência.

Nos anos 30, o capitalismo passou a sofrer de uma doença interna: a Grande Depressão, que parecia consagrar a vitória decisiva das economias planificadas. O keynesianismo foi uma resposta de dentro do sistema, substituindo parcialmente o mercado pelo governo, mas criando, para corrigir vicissitudes da conjuntura, deformações de estrutura.

Tanto a democracia como o capitalismo sobreviveram a esses desafios. E o capitalismo democrático – isto é, o casamento da democracia política com a economia de mercado – se tornou vitorioso na cultura ocidental. Diz-se da democracia política que é o pior dos sistemas, excetuados todos os outros. Pode-se dizer também da economia de livre mercado que é o pior dos sistemas econômicos, excetuados todos os outros. Foi da combinação desses dois “piores” que nasceu o melhor: o capitalismo democrático. As ideologias alternativas, ou fracassaram no teste do tempo, como o socialismo real, ou não são universalizáveis como o nacionalismo e o fundamentalismo islâmico.

Ao contrário do que se passara na década dos 60, a dos 80 pode ser equiparada a uma “contrarreforma”, pois o País marchou na contramão da história. A redemocratização política em 1985 agravou ao invés de atenuar o intervencionismo econômico. E foi seguida de uma ladainha de erros. A política de nacionalismo informático ao fim do ciclo militar; os vários planos heterodoxos de estabilização; a moratória da dívida externa em 1987 e o grande desastre – a Constituição de 1988 – dirigista no econômico, utópica no social e híbrida no político. Foi uma “contrarreforma”, a qual, como disse à época o presidente Sarney, cuja presença neste ágape muito me honra, tornou o País ingovernável. A atual década de 90 se iniciaria com uma política esquizofrênica liderada por um governante esquizofrênico: infligiu-nos um desastre conjuntural, através do confisco de ativos financeiros, e nos trouxe um avanço estrutural, com a abertura da economia e o início da desestatização.

A tarefa com que o presidente Fernando Henrique Cardoso e todos nós nos defrontamos, hoje, é a realização das reformas de segunda geração para desfazimento da contrarreforma da Constituição de 1988. Essas reformas de segunda geração visam, além da estabilização monetária, à reestruturação e redimensionamento do Estado. Reestruturação, pelas reformas administrativa, fiscal e previdenciária. Redimensionamento, pela privatização de empresas estatais e serviços de infraestrutura.

Aceitarei mansamente o crepúsculo, sem raiva contra a morte da luz e a chegada da noite. E ainda que os cínicos digam que a experiência é apenas um nome que se dá aos erros preferidos, ouso extrair de minha experiência algumas “máximas do crepúsculo”. É o que chamarei de “decálogo liberal”, usando alguns conceitos meus e alguns emprestados de outros (que usarei sem pagar direitos autorais):
* O Brasil deve parar de admirar o que não deu certo. (Tom Jobim)

* O Governo não pode dar nada ao povo que primeiro dele não tenha tirado. (Richard Nixon)

* No estado Babá, os assistentes sempre ficam melhor que os assistidos.
Não se deve confundir Estado forte com Estado grande. Para ser forte o estado tem que ser modesto.

* Mais importante que as riquezas naturais são as riquezas artificiais da educação e da tecnologia.

* O erro dos militares foi não terem feito a abertura econômica antes da abertura política; o erro dos civis foi, depois da abertura política, praticarem uma fechadura econômica.

* O Estado é melhor como jardineiro, que deixa as plantas crescerem, do que como engenheiro, que desenha plantas erradas.

* Os nacionalistas gastam mais tempo odiando os outros países do que amando o seu próprio país.

* Os que creem que a culpa dos nossos males está em nossas estrelas e não em nós mesmos ficam perdidos quando as nuvens encobrem o céu.
Como veem, a agenda de reformas, a fim de resgatarmos nosso atraso no rendez-vous com o destino, é ampla e desafiante.

É tarefa para os jovens, que são proprietários do futuro, mais do que para os velhos de minha geração, que são inquilinos do passado.

***

Encerro, sugerindo aos amigos leitores, que confirmem a impressionante atualidade destas palavras de Roberto Campos lendo o artigo em homenagem a John Williamson, falecido nesta semana, tido como criador do Consenso de Washington, cujas propostas são também dotadas de notável atualidade (https://espacodemocratico.org.br/noticias/debate-sobre-a-privatizacao-precisa-perder-o-vies-ideologico/), e acompanhando o Diálogo no Espaço Democrático com o Prof. Marcio Holland, a respeito do inaceitável tamanho do Estado no Brasil (https://espacodemocratico.org.br/noticias/debate-sobre-a-privatizacao-precisa-perder-o-vies-ideologico/).

Um comentário:

Anônimo disse...

As ideias que RC semeou vão brotando, aos pouquinhos. Uma hora a petrossauro vai pro brejo (sem nos levar junto).