quarta-feira, 14 de abril de 2021

Sentindo o calor na calva: como se manter são em tempos de pandemia.


Na maior parte da história, as pessoas viveram sentindo o sol no lombo e sem ter a menor ideia da mais recente estupidez dita nos palácios. A crônica diária de Paulo Polzonoff Jr. na Gazeta do Povo:


Passei o dia inteiro andando pela cidade. Só observando. Sem fazer qualquer anotação na cadernetinha amarfanhada nem no grupo “Minhas Ideias” do WhatsApp (um membro). Só olhando e ouvindo com o ouvido bom que me resta. E ouvindo as ondas e sentindo o cheiro de maresia (não é o que você está pensando). E parando aqui e ali para reclamar do calor.

Em resumo, me deleitando com a tal realidade. Aquela que ainda se pode considerar “palpável” sem ser acusado de assédio. A realidade das pessoas que passeiam com os cães, dos atletas sempre apressados, das crianças com seu ar precocemente cansado, dos velhos que não sabem se é por aqui ou ali e dos seguranças sempre circunspectos e graves como antes convinha aos poetas e hoje lhes convém.

Essa é a realidade dos sentidos. Meus pés latejam, meus olhos clamam por óculos de sol, meu ouvido bom ouve, não acredita, ouve de novo e pensa “ah, tá”, meu nariz reclama do cigarro que alguém fuma achando que não atrapalha ninguém, minha boca exige uma cerveja bem gelada nesse calor. É a realidade que dá para “esfregar na cara”. Tá vendo esse arranhão aqui? Caí de bicicleta. Caí mesmo.

Como toda realidade que se preze, ela também tem um adjetivo que insiste em acompanhá-la a tiracolo: inegável. Posso fechar os olhos, mas continuarei ouvindo. Posso fechar os olhos e tampar os ouvidos, mas continuarei sentindo o cheiro do cigarro alheio. Posso, de alguma forma mágica e certamente cômica, fechar olhos, ouvidos, nariz, boca e ficar paradinho num canto. Ainda assim sentirei meus pés latejando e o calor em minha calva.

Ao chegar em casa, fui logo mergulhar os pés na salmoura e pegar uma cerveja gelada (não tinha). Me recostei no sofá e, ao esticar os braços numa espreguiçada daquelas, quase derrubei o celular. Peguei-o assim de supetão e o segurei como um bebê que precisa muito de um chocalho, mas não sabe. E o pus diante do rosto, sendo imediatamente sugado para aquela outra realidade.

A realidade dos adolescentes de trinta anos que sabem o que é melhor para os outros, das certezas, dos xingamentos, das hashtags que mudarão o mundo, da análise exaustiva da mais recente bobagem presidencial, das conspirações, do medo, do “eu tenho selo azul, você não tem”, das críticas sociais contundentes, do antagonismo atávico.

Essa é a realidade virtual, incapaz de atiçar os sentidos (comumente entretidos com alguma outra coisa), mas muito eficiente em apelar ao chefão deles, o cérebro. Que, a partir dela, vai pegando aqui e ali umas matérias-primas que estavam esquecidas (um livro que você leu há muito tempo e do qual só tem uma vaga ideia, a lembrança do saldo bancário naquele momento e um ressentimentozinho para dar liga) e molda uma imagem do mundo que ora o torna mais agradável e ora o torna simplesmente inabitável, hashtag vemmeteoro.

Ao contrário de sua prima, a Inegável, é plenamente possível se abster da realidade virtual. Na verdade, foi assim que os seres humanos viveram na maior parte da sua história: sentindo o sol a lhe queimar o lombo e sem ter a menor ideia da mais recente estupidez dita (ou pensada) nos corredores dos palácios. Quase sendo atropelado por um carro sem pensar nas estatísticas de mortes por atropelamento. Dando esmola a um mendigo só porque achou que era o certo a fazer, sem teoria nem criar vakinha para demonstrar virtude.

E, no choque de descobrir que essas duas realidades não se misturam, percebi que juntas elas compunham uma terceira, que é justamente esse monstrengo que temos diante de nós hoje em dia.

A realidade na qual as pessoas que passeiam os cães são opressoras das que não têm cãozinho para passear; na qual os atletas correm não por vaidade, e sim para salvar as crianças das drogas ou dar a primeira casa própria para a minha mãezinha; na qual as crianças o abordam no meio de uma praça para perguntar “qual sua opinião sobre o aborto?”; na qual os velhos só têm a ensinar a esperteza de fazer concurso público e hoje viver de sombra e água fresca graças à polpuda aposentadoria; na qual os seguranças, sempre de olho nos perigosos arredores, discutem quem votou no candidato pior e por quê.

Essa é a realidade que se diz racional e científica e que lhe promete uma espécie de paraíso na Terra. Mas que se borra de medo de ver a Inegável acabar.

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