sexta-feira, 14 de maio de 2021

A administração Biden zomba da sabedoria dos antigos


Artigo do historiador Victor Davis hanson para The Daily Signal, com tradução para a Gazeta do Povo:


A natureza humana se mantém a mesma ao longo do tempo e do espaço. Por isso era usada para prever comportamentos políticos, econômicos e sociais que todos os países entendem.

A oferta de dinheiro controla a inflação. Imprima-o sem aumentar a produtividade ou a oferta de bens e serviços e a moeda perde valor. Ainda assim, os Estados Unidos parecem rejeitar esse truísmo primordial.

Os Estados Unidos têm um débito de mais de US$ 28 trilhões — cerca de 130% do PIB do país. O governo prevê um déficit de US$ 2,3 trilhões em 2021, depois de registrar um déficit recorde de US$ 3,1 trilhões no ano anterior.

A administração Biden ainda quer emprestar mais US$ 2 trilhões em programas sociais e de “infraestrutura”.

Na loucura dos últimos 100 dias, o preço de todas as coisas, da madeira aos alimentos, passando pela gasolina, carros e casas, disparou. Ainda assim, muitas das taxas de juros permanecem abaixo dos 3%.

Os empregos são abundantes; os trabalhadores, não. Surpreende alguém que as transferências do governo desestimulem os desempregados a procurar emprego?

Depois de 13 meses de quarentena, os norte-americanos estão gastando. Mas essa demanda repentina está provocando a escassez de alguns produtos. Os fabricantes temem o papo de Biden sobre aumento de impostos, maior regulamentação e cortes no desenvolvimento de energia.

Os velhos princípios são mesmo obsoletos? Devemos imprimir dinheiro e aumentar o débito do governo? É inteligente manter as taxas de juros próximas de zero, desestimulando o emprego, a produção e a inovação? Esse comportamento perigoso é garantia de inflação, acompanhada pela desastrosa estagflação.

Criminalidade e política externa

Depois que George Floyd foi morto nas mãos da polícia em Minneapolis, algumas cidades norte-americanas diminuíram os gastos com o policiamento. A reação policial foi retardada em vários lugares, talvez também porque os policiais temessem ser demitidos por usarem a força.

O resultado? Em grandes cidades como Nova York e Los Angeles, os homicídios e outros crimes violentos dispararam.

Os governos municipal e estadual acreditam que não se enquadram nas leis básicas da criminalidade que dizem que, quando os criminosos percebem que não serão pegos nem punidos, eles tendem a cometer mais crimes.

O mesmo perigo de se ignorar alguns aspectos imutáveis da natureza humana se aplicam à política externa.

Antagonistas agressivos como Irã, Coreia do Norte, China e Rússia acreditam que a administração Biden vai reduzir os gastos com defesa. E o presidente Joe Biden soa até mais crítico da política externa de Trump do que os inimigos do país. Por que não assumir riscos que antes eram injustificados?

Assim, as tropas russas ultrapassam a fronteira com a Ucrânia. A China aumenta o assédio sobre Taiwan. A Coreia do Norte lança mais mísseis. O Irã ameaça navios norte-americanos no Golfo Pérsico. E, agora, o Hamas dispara foguetes contra Israel.

Aparentemente, a administração Biden não sabia que as ditaduras e teocracias interpretariam sua sinalização de virtude como um sinal de fraqueza a ser explorado, e não magnanimamente retribuído.

O velho ditado do escritor romano Vegécio — "Si vis pacem, para bellum", se você quer paz, prepara-se para a guerra — era deprimente demais para ser levado a sério.

Antigamente, quanto maior o impedimento para se avançar sobre a fronteira de um país — muralhas e leis —, menos improvável era que houvesse imigração ilegal. Neste caso também a administração Biden aparentemente rejeitou os alertas dos antigos.

A interrupção da construção do muro, a promessa de anistia antecipada e a menosprezo à aplicação das leis geraram mais imigração ilegal.

A recusa em chamar o caos na fronteira sul de “crise” não significa que a situação não seja um desastre.

Tensões raciais

A sabedoria antiga também alerta que os humanos preferem criar alianças dentro da própria tribo, definida por raça, etnicidade ou religião. Que o perigo à própria existência é o que leva nações multirraciais a sempre tentarem diminuir as diferenças tribais, dando ênfase a laços comuns como cidadania e interesses transcendentais. De outra forma, um país diverso acaba como o Líbano, Ruanda e a ex-Iugoslávia, onde as lutas tribais resultaram em derramamento de sangue e barbárie.

Ainda assim, durante três meses a administração Biden deu ênfase às diferenças raciais, e não aos nossos aspectos comuns. Ele estereotipa a população branca dos EUA — que não é nada uniforme em termos de classe e etnicidade — como um grupo que goza uniformemente de privilégios e que é sistemicamente racista.

Em meio a esse debate, o perigo é o de que as tensões raciais aumentem, os crimes de ódio disparem, os demagogos racialistas dominem o discurso, a meritocracia desapareça e a solidariedade tribal a substitua. Assim, a antiga ideia responsável pela formação dos Estados Unidos desaparecerá.

Quando um presente arrogante ignora a sabedoria do passado, o futuro previsível se torna assustador.

Victor Davis Hanson é classicista e historiador no Hoover Institution da Stanford University.

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