quarta-feira, 5 de maio de 2021

Boas lições dos tempos das caravelas


Numa altura em que frequentemente nos sentimos algo envergonhados com o nosso passado, junto-me aos que apelam à necessária reconciliação e bom senso. Rui Esteves para o Observador:


Esta semana recordo, novamente, a obra do Padre Fernando Oliveira A Arte da Guerra no Mar, escrita em 1555. Tratado que releio periodicamente pelas lições que encerra, muitas delas que tenho considerado úteis não só na minha ainda curta carreira de oficial de Marinha, como também enquanto pessoa. Numa altura em que frequentemente nos tenho visto e lido algo envergonhados com o nosso passado, a questionar alguns monumentos e referências, junto-me aos que apelam à necessária reconciliação e bom senso que nos permita preservar e, quiçá, recuperar o que de bom há a preservar e repudiar as práticas que também no passado foram por alguns condenadas, como é exemplo ímpar a escravatura.

Publicada em Coimbra no ano de 1555, continua a ser a única obra integral de estratégia marítima alguma vez escrita em Portugal e por um português, que trata da edificação, da organização e do emprego das marinhas, mercante e de guerra, ao serviço do projeto político português, considerando os interesses de natureza económica, diplomática, social e militar. Justificou a razão que o levou a escrever sobre a guerra do mar, não só pela importância do comércio marítimo, como também pela necessidade de o país dispor de uma capacidade naval suficiente para defender os seus interesses económicos, se necessário através do uso da força.

Com inaudito desassombro, para ser tão ostensivamente manifestado no seu tempo e por indivíduo de melindrosa situação social, Fernando Oliveira condenou energicamente as guerras movidas pelos cristãos aos infiéis ou indígenas e também considerava odiosa a prática de os escravizar, como então se admitia sem reserva, mesmo aos povos julgados na vanguarda da civilização.

«Não podemos fazer guerra justa aos infiéis que nunca foram cristãos, como são os mouros e judeus e gentios que connosco querem ter paz e não tomaram as nossas terras por alguma via, prejudicam a cristandade. Melhor os convertermos à fé e mais os edificaremos nela com exemplo de paz e justiça, que com guerra ou tirania. Tomar as terras, impedir a franqueza delas, cativar as pessoas daqueles que não blasfemam de Jesus Cristo nem resistem à pregação da sua fé, quando com modéstia lha preguem, é manifesta tirania…E não lhe é nesta parte boa escusa, dizer que eles se vendem uns aos outros, que não deixa de ter culpa quem compra o mal vendido, e as leis humanas desta terra e doutras, o condenam, porque, se não houvesse compradores, não haveria maus vendedores, nem ladrões furtariam para vender. Nós fomos os inventores de tão mau trato nunca usado nem havido entre humanos». Citação que uso para enquadrar a posição do autor que exagera a responsabilidade portuguesa nesta prática condenável que não inventaram, visto provir dos primórdios das civilizações e transmitida até à Idade Média, em que a nacionalidade portuguesa se formou. Prova de que também nas obras de então é possível encontrar posições humanistas e dignas que devem ser exaltadas.

Além da sua condenação do esclavagismo, realço as suas arrojadas considerações sobre a educação amolengada e piegas que conheceu, a parte da mocidade do seu tempo, frequentando casas fidalgas enquanto professor: «Como serão suficientes defensores da terra, estes? Comerão eles e perderão as nobrezas, que seus avós ganharam, mas não tais manhas. Melhor é que se ainda se queixam os galantes, porque os não melhoram, avantajando-os em renda mais que seus avós, porém, porque comem o que não merecem, se não conhecem». Transposto para a nossa realidade recorda-me a importância de uma educação cuidada e exigente, para promover o exercício responsável e sobretudo sustentável do poder a quem o detém, para assegurar a preservação e aumento da prosperidade.

Igualmente subversiva na sociedade em que viveu, é a posição contrária aos morgadios que então escreveu. «Muito bem seria, que se não fizesse senão em vida, porque cada um trabalhasse por merecer, e se houvesse que dar aos que servem e merecem. Nem se deviam permitir facilmente os morgados patrimoniais, pelo mesmo respeito, e porque se não lancem os homens à ronçaria.». Apologia do trabalho e do mérito enquanto imperativos para o crescimento.

Dedicou um capítulo da sua obra para tratar “dos capitães do mar e do seu poder”. Escreveu que o «capitão deve ser homem maduro e considerado, velho ao menos no siso, que muitos mancebos há que são mais maduros que alguns velhos» mas que se o «mancebo não é sisudo, não deve ser capitão por mais cavaleiro que seja, mas exercite a sua valentia submetida a quem mais para reger é…pois o seu ofício é mandar e não pelejar. A autoridade do comandante exige que possua a competência que lhe corresponde, que «seja entre os outros, como a cabeça entre os membros, e assim como em dignidade os precedes a todos, deve preceder em prudência, esforço e muitas qualidades… Deve ser esperto no entender, acautelado no fazer, magnânimo em sofrer, animoso para cometer, destro constante no combater. Este ofício quer-se aprendido porque quem não aprende não sabe ensinar. Seja o capitão muito amigo da sua gente, e sinta tanto o trabalho de qualquer soldado como o seu próprio, e estime muito a vida dos seus homens e assim não usará mal do seu poder, nem os escrupulosos porão obstáculos a lhe ser cometido». Princípios que, ainda que retirados de contexto bélico, poderão ser certamente ensinados em qualquer seminário ou curso de liderança atual e reputado.

Ainda a propósito da liderança dos seus, recomenda que o capitão «busque ocasiões em que os ocupe, não os deixe estar ociosos e se murmurarem dissimule, porque é cousa própria a estes como a frades. Vá com eles, ajude-os e animá-los-á. Os que mandam, diz Marco Varrão, não somente devem mandar, mas também fazer, para que os súbditos os imitem e trabalhem de boa mente. Nem é contrário o trabalho à dignidade do capitão… É contrária a ociosidade à guerra e odiosa à gente dela, assim para a disposição dos corpos e destreza das armas, como para a continência dos costumes».

Correndo o risco de ter proporcionado uma leitura fastidiosamente marcada por citações quinhentistas, para as quais peço alguma indulgência pelo entusiasmo que esta obra me suscita, convido novamente à leitura deste livro peculiar. Nele se podem encontrar diversos princípios que apesar de aplicados à organização, edificação e emprego do poder naval, em meados do século XVI, muitos deles da lei da morte se libertaram e poderão ser certamente considerados válidos enquanto boas práticas de gestão e liderança.

Votos de um bom dia e boas leituras!

Rui Esteves tem 32 anos e é Oficial de Marinha, formado em Ciências Militares Navais – ramo Marinha. Juntou-se ao Global Shapers Lisbon Hub em 2014.

Um comentário:

Anônimo disse...

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