segunda-feira, 10 de maio de 2021

Depois dos 200 anos de Napoleão, comemoraremos o bicentenário de Hitler?

Retrato inacabado de Napoleão, por Jacques-Louiz David.

Vistos à lupa e sem a propaganda de seus regimes, 'homens providenciais' como ele mais lembram os loucos de asilo. João Pereira Coutinho via FSP:


No dia em que o mundo comemorou os 200 anos da morte de Napoleão Bonaparte, optei por ler Simon Leys e o seu “A Morte de Napoleão”. Já me tinham avisado que era uma das mais brilhantes novelas da segunda metade do século 20.

Resistia. Nem sempre grandes ensaístas dão bons ficcionistas —e Leys, pseudônimo do sinólogo Pierre Ryckmans, é um dos grandes ensaístas do nosso tempo.

Erro meu. “A Morte de Napoleão” é uma obra-prima de história alternativa —e uma meditação cruel sobre as ilusões do poder e da vaidade.

A premissa é notável: Napoleão, preso na ilha de Santa Helena, é acordado no meio da noite para ser resgatado do seu cativeiro. No lugar do velho imperador ficará um sósia, dos vários que existiam à época.

Napoleão embarca no navio salvífico, rumo à Europa —e, na cabeça dele, rumo à restauração do seu poder. Ele só quer chegar a Paris, destronar uma vez mais os Bourbon e reconquistar um continente que já foi dele.

O barco chega à Europa. Napoleão chega a Paris, depois de passar (ironicamente) pelos campos de Waterloo, convertidos em atração turística com guias vestidos a rigor.

Mas o seu sósia, na distante ilha de Santa Helena, acaba por morrer. As notícias correm o mundo. Napoleão, o verdadeiro, não passa agora de um homem comum, sem identidade, e abandonado pelos seus fiéis.

Não fosse a gentileza de uma jovem vendedora de frutas, que o acolhe em casa, o destino mais provável daquele homem seria o asilo dos lunáticos. Onde já existem vários Napoleões que reclamam o título imperial só para eles (uma vetusta tradição, como se vê).

Sim, costuma dizer-se que todas as vidas políticas terminam em fracasso. Mas Simon Leys não se limita ao fracasso; ele mostra o que há de patético na tentativa humana, demasiado humana, de negar esse fracasso e de procurar ainda retornar a uma glória perdida.

É esse tipo de atitude que sempre me impressionou na nostalgia por Napoleão, o grande “libertador dos povos”. Pergunto: será que em 2145 estaremos a comemorar os 200 anos da morte de Adolf Hitler?

Talvez não: a Alemanha democrática que nasceu das cinzas fez um esforço brutal para pintar o Terceiro Reich com as cores merecidas, as cores da desumanidade e da infâmia.

O mesmo não se passou na França depois da morte de Napoleão, em 1821 e, sobretudo, depois da queda dos Bourbon, em 1830.

O tirano foi elevado aos píncaros da grandeza nacional —e as críticas contemporâneas, nos 200 anos da sua morte, só parecem preocupadas com o fato de Napoleão ter sido um misógino (o seu Código Civil de 1804 não tratava bem as mulheres) e um escravocrata (ao tentar reinstituir a escravidão nas colônias depois de a Revolução Francesa a ter abolido).

Fatalmente, os países europeus que ele subjugou, ocupou, destruiu e pilhou têm outra opinião.

E, para cada feito de Bonaparte —os seus códigos, as suas reformas, o seu patrocínio das ciências e das artes—, há milhões de mortos pelo caminho.

Sem esquecer o que me parece o maior legado das suas campanhas de “libertação”: despertar o nacionalismo ressentido dos povos germânicos, que no século seguinte daria frutos ainda mais sombrios.

Ler Simon Leys é lembrar, para os mais esquecidos, que não existem “homens providenciais” em política —e que esperar por eles é uma confissão de imaturidade.

Vistos à lupa, e sem a propaganda oficial dos seus regimes, os tais “homens providenciais” lembram os loucos de um asilo, convencidos de que são Napoleão.

Nenhum comentário: