sexta-feira, 7 de maio de 2021

O New Deal 2.0


Reabre com estrondo o debate sobre o tamanho do Estado. Vilma Gryzinski para a edição impressa de Veja:


Qual deve ser a melhor forma de administrar um país de modo a beneficiar o maior número possível de pessoas? As duas respostas existentes em países democráticos alternam-se como numa dança de placas tectônicas. Uma é aumentar o tamanho do Estado, criando um ente superpoderoso que regulamenta as atividades econômicas, cobra impostos polpudos e provê os cidadãos de todas as necessidades básicas, do berço ao túmulo, como se diz sobre os países onde vigora a social-democracia. Outra é quebrar as canelas do governo, deixando que empresas e trabalhadores entendam-se como quiserem, para insuflar o espírito animal do livre empreendimento e cortar o fôlego do bicho-papão que gera burocracia, desperdício, ineficiência, serviços miseráveis, castas inexpugnáveis e corrupção. Ronald Reagan resumiu a ideia com a brincadeira famosa sobre as nove palavras mais assustadoras da língua inglesa (o mesmo número em português): “Eu sou do governo e estou aqui para ajudar”.

Os Estados Unidos se tornaram a maior potência da história usando um pouco de ambas as ideias, conforme o momento histórico. E o momento em que o Estado grande mais teve influência foi quando Franklin Roosevelt combateu a Grande Depressão a golpes sucessivos de dinheiro público e grandes reformas estruturais. É esse espírito que Joe Biden pretende reformatar, numa espécie de versão 2.0 do New Deal. As comparações entre os dois são constantemente plantadas na imprensa, deixando as digitais do influente chefe de gabinete de Biden, Ron Klain. Até a ideia já bem gasta de cem dias transformativos logo no início do governo foi copiada de Roosevelt e disseminada por Klain. Sem a densidade nem o poder intelectual e a visão histórica de Roosevelt, Biden compensa a desvantagem com números: seus pacotaços de 6 trilhões de dólares deixam numa rasteira muito distante os 650 bilhões, em valores atualizados, gastos no New Deal. Uma diferença importante é que os Estados Unidos que Roosevelt pegou em 1933 eram um país alquebrado pela depressão e Biden assumiu com uma crise episódica, criada pelo coronavírus e relativamente fácil de resolver — bastavam vacinas e dinheiro emergencial para atravessar os meses sombrios de desemprego e falências. Mas Biden aproveitou a pandemia para passar — ou quase, pois há projetos ainda não levados ao Congresso — a boiada dos pacotes estratosféricos.

O Estado todo-poderoso é chamado em inglês the Big Government e desde o nascimento dos Estados Unidos seu papel é discutido. Pais da pátria como George Washington, John Adams e Alexander Hamilton pendiam para o lado “grande”. O mais genial de todos eles, Thomas Jefferson, era um minimalista que achava que o governo deve ser “rigorosamente frugal e simples”. O historiador Joseph J. Ellis diz que o debate entre as duas correntes decorre de um dilema espantosamente simples: o governo é “nós” ou “eles”? Infelizmente, é uma dúvida que não existe no Brasil. Aqui, seja qual for o governo, é sempre “eles”.

Publicado em VEJA de 12 de maio de 2021, edição nº 2737

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