sexta-feira, 7 de maio de 2021

O pânico da "cultura do estupro" nas escolas


O sexo entre adolescentes muitas vezes é desconfortável e confuso. Mas isso não significa que todos os encontros sexuais entre eles sejam abusivos. Joanna Williams, da Spiked, para a revista Oeste:


As escolas podem ter reaberto aqui no Reino Unido, mas muitas já estão envolvidas em um escândalo. Pipocam nas escolas particulares histórias que expõem e condenam a “cultura do estupro”, aparentemente desenfreada. Esse é o “momento #MeToo” do setor da educação, um longo acerto de contas tardio, os ativistas nos dizem — uma chance de enfrentar o sexismo, a misoginia e o assédio que supostamente assolam as salas de aula mais caras do país.

O “momento” começou com o Everyone’s Invited, um site e uma conta de Instagram lançados no ano passado e que reúnem “relatos de sobreviventes”. De início, suas páginas estavam cheias de alunas de escolas privadas detalhando tudo — de supostos estupros e agressões sexuais até piadas e insultos de cunho sexual. Alimentado pela cruzada da cobertura “progressista” da mídia, o interesse no tema disparou. Agora, perto de 8 mil incidentes foram registrados no site, enquanto o perfil no Instagram chegou a cerca de 37 mil seguidores — número não desprezível no Reino Unido.

No pano de fundo, ex-estudantes da Westminster School compilaram um “dossiê da cultura do estupro”. A Dulwich College denunciou os próprios alunos para as autoridades. Estudantes da Latymer School publicaram uma lista de exigências. O Ministério do Interior e o Departamento de Educação estão trabalhando com a polícia. O Departamento de Qualidade para a Educação e a Inspetoria das Escolas Independentes coordenam sua própria investigação. Escolas de onde surgiram acusações estarão sujeitas a inspeções-surpresa. Uma central de atendimento foi criada para relatos de incidentes. E, finalmente, a Secretaria de Educação terá de apresentar um parecer ao Parlamento.

Essa é uma reação enorme a uma questão que mal era discutida há dois meses. Ela é movida por uma suposição de que os testemunhos registrados são apenas “a ponta do iceberg” e que as escolas encobriram violências sexuais para proteger a própria reputação. Comissários de polícia relatam que a cultura do estupro não está restrita às escolas particulares, mas é endêmica no setor público e nas universidades também. Eles fizeram um apelo para que pais entreguem seus filhos para a polícia se suspeitarem de culpa.

Dizem que as denúncias de violência nas escolas podem ser o “próximo escândalo nacional”. Mas a rapidez com que estamos tratando essas alegações como fato e a aceitação cega de que os incidentes relatados nem dão conta da extensão real do problema sugerem que não estamos diante de um escândalo, mas de um pânico moral. Deve ser responsabilidade de todos parar e pensar antes de se apressar a reagir.

Precisamos ter em mente que, apesar das manchetes que juntam os dois (como o jornal The Times afirmando que o estupro é “normal” nas escolas particulares), “estupro” e “cultura do estupro” não são a mesma coisa. Enquanto o estupro é um crime muito grave, passível de punição com sentença de prisão longa, a “cultura do estupro” é usada como um rótulo abrangente para descrever um ambiente que objetifica as mulheres — a normalização da pornografia, dos insultos sexistas, de piadas degradantes, por exemplo. Não tem nada de bom, mas não é estupro.

Também vale lembrar que hoje a maioria dos adolescentes fica na escola até depois dos 18 anos, o que vai além da idade legal de consentimento. Não existem sugestões nesses relatos de que o assédio sexual contra as garotas está sendo cometido por professores ou adultos mais velhos. O que está sendo alegado passou a ser chamado de “assédio entre colegas”, ou seja, entre jovens mais ou menos da mesma idade.

Que adolescentes tenham interesse em sexo não é exatamente uma revelação. Com os hormônios em polvorosa, é um período em que a maioria das pessoas descobre sua sexualidade, pratica o flerte e experimenta relações. Isso é muitas vezes encorajado — ou, pelo menos, reconhecido — por educadores sexuais progressistas que muito raramente recomendam aos adolescentes simplesmente dizer não para o sexo. Os jovens de hoje vivem em um mundo estranho em que eles veem sexo e falam sobre sexo, mas só podem praticá-lo se seguirem mais regras e procedimentos que um jogo de xadrez.

Como qualquer pessoa que já foi adolescente sabe, os primeiros encontros sexuais raramente são champanhe, rosas e quartos de hotel luxuosos. A realidade do sexo entre adolescentes muitas vezes é desconfortável e confusa — tanto emocional quanto fisicamente. Mas isso não significa que todos os encontros sexuais entre adolescentes sejam abusivos. Precisa haver espaço para experimentação, o que significa cometer erros e até sentir arrependimento.

Muito da discussão atual apresenta as garotas como presas inocentes de garotos predatórios. Mas as meninas não são tão inocentes. Muitas gostam de se vestir de maneira provocante e chamar a atenção dos garotos. As adolescentes são tão capazes quanto os adolescentes de se embriagar e agir com imprudência. Claro, estar bêbado e usar roupas curtas não é um convite ao sexo. Mas absolver as garotas de toda responsabilidade pelo próprio comportamento não é bom para elas a longo prazo.

Alguns garotos claramente se comportam mal — talvez até de forma criminosa. Mas mesmo os adolescentes devem ser considerados inocentes até serem provados culpados. Se formos acreditar na vítima, precisaremos oferecer a mesma boa-fé ao acusado também. A justiça das redes sociais abre um precedente perigoso para todos os envolvidos.

Ser vítima de violência sexual é devastador. Mas ser publicamente acusado de algo que você não fez — ou fez involuntariamente — também pode mudar a vida de alguém. Não é fácil para um jovem pôr a vida nos eixos depois de enfrentar a vergonha e a humilhação públicas, o fim de amizades e de vínculos sociais, a revogação de vagas em universidades ou de ofertas de emprego. Isso pode ser justo se o devido processo legal foi seguido, mas não se você vê seu nome circulando sem ter a chance de explicar o seu lado da história.

Também vale considerar por que todo o foco do momento está nas escolas. A maior parte dos incidentes discutidos no site Everyone’s Invited não ocorreu nas escolas, mas em quartos, jardins, pontos de ônibus e parques. O foco implacável nas escolas particulares sugere que existe algo político — uma oportunidade de atacar instituições que há muito são odiadas como bastiões do privilégio e do elitismo. Garotos brancos e ricos são considerados um alvo legítimo por praticamente todo mundo.

As alunas das sofisticadas escolas particulares do norte de Londres estão em situação similar. Elas têm mais probabilidade de obter resultados melhores em exames, conquistar vagas nas melhores universidades, fazer trabalho voluntário no ano sabático e descobrir que as portas estão abertas para as melhores carreiras. Em uma sociedade que valoriza a vitimização, essas garotas descobrem — para seu próprio prejuízo — que não têm tanto valor assim na nova “escala de virtudes”. Ser vítima da cultura do estupro pode torná-las mais “normais” e “menos privilegiadas”.

É irônico que esse pânico moral a respeito do sexo entre adolescentes tenha explodido no decorrer de um longo período em que os jovens quase não foram à escola e raramente tiveram outras oportunidades de encontros ilícitos. Pelo bem de todos eles, os adultos precisam parar de mergulhar precipitadamente no pânico.

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