sexta-feira, 17 de setembro de 2021

O governo no céu e as prefeituras na terra


Resta decidir o voto. É muito difícil, já que cada partido concorre a pastorear os desamparados eleitores. Mas não é muito difícil, já que cada partido, salvo o PS, acaba por ser uma imitação do PS. Alberto Gonçalves para o Observador:


Votar nas “autárquicas”? Claro que sim. Mas é muito difícil, seja em que autarquia for. No meu caso, basta-me sair à rua para deparar, no canteiro em frente, com meia dúzia de cartazes, nos quais personalidades de aspecto impecável me acenam com mensagens convincentes. Uns prometem mudança (gosto), outros continuidade (gosto). Todos garantem prodígios (gosto). Uma senhora quer que continuemos a “trabalhar juntos”, equívoco devido à natural excitação da campanha: não conheço a senhora de parte alguma e não me recordo de receber salário. Ainda assim, votaria nela pelo entusiasmo. O problema é que o sugestivo apelo dos restantes candidatos também não me é indiferente. As dúvidas corroem-me.

Porque conduzo bastante no nosso encantador país, sei que esta hesitação é partilhada pela vasta maioria dos meus compatriotas, que nos respectivos lugarejos se descobrem aturdidos com tantas e tão refinadas alternativas. Só um morto resistiria a estadistas que, na câmara ou na junta, repletos de uma saudável mescla de “experiência” e “juventude”, juram “fazer melhor”, possuir “visões estratégicas”, enfrentar os “desafios do futuro”, “reafirmar valores” ou “unir” o lugarejo e levá-lo “para a frente”. Para cúmulo, é raro o estadista que não “aposta” na “mobilidade”, na “coesão territorial”, na “consciência ambiental” e, evidentemente, na “acessibilidade habitacional”. Pessoas sofisticadas não tropeçam nas palavras.

Antes que me acusem de superficialidade, adianto que não me fio exclusivamente nos cartazes e nos chavões de propaganda, já de si espectaculares. Por infortúnio, não consegui testemunhar arruadas, eventos de enorme pertinência, afectuoso convívio e; às vezes, bombos. Porém, para aprofundar conhecimentos, espreitei três ou quatro debates televisivos, por acaso sobre municípios a que nunca fui. Achei os debates elevadíssimos. Invariavelmente, os candidatos são gente de nível, instruída, bem vestida, alimentada a altruísmo e vontade de promover o bem-comum. Poucos exibiam palito na boca. Notei uma aflição generalizada com a desertificação: pelos vistos, o povo tende a abandonar os sítios, que fatalmente encolhem. O mistério é não haver sítios que aumentem. O que acontece aos munícipes desaparecidos? O que fomenta tamanha ingratidão? Que altura deverão ter os muros de betão para estancar o êxodo? Lamento reparar que as perguntas ficaram sem resposta. Fora isto, os debates roçaram a excelência.

“Excelência” é, além do modo de tratamento que nos merecem os autarcas, o substantivo que qualifica na perfeição o municipalismo. Se o poder central é o cérebro que nos orienta no caminho da Razão, o poder local é o coração que nos acarinha e embala rumo ao Bem. Não são precisos grandes argumentos a seu favor. Na verdade, não é preciso argumento nenhum. Basta lembrar que sem poder local não haveria rotundas, arte pública em cima das rotundas e as imprescindíveis ciclovias – ai, as ciclovias – ao redor das rotundas. Nem haveria forrobodós musicais, com aqueles artistas que veneramos e que na nossa ignorância não pagaríamos directamente para ouvir (pagar indirectamente é mais agradável).

E quem diz música diz exposições bem bonitas, “certames patentes” em “multiusos” modernos, museus do papel, do lápis e do algeroz e, não esquecer, “centros interpretativos” (“centro interpretativo” é o que sucede sempre que se constrói um museu e não existem objectos originais para enfiar lá dentro, lacuna que se preenche facilmente com paredes brancas, cópias de fotografias, e – não abusem – “quadros interactivos”). E bairros “sociais”, para estimular o turismo de aventura. E “wi-fi” comunitário, que quase funciona. E dezassete baldinhos de cores e formatos diferentes para separar o lixo. E buracos no chão que talvez profetizem obras, esse emblema maior do progresso.

O sucesso do poder local está à vista. E depois há os sucessos que não se vêem. Sem as autarquias, de que maneira se consolaria o apetite das clientelas, perdão, das elites paroquiais? Sem as autarquias, onde se empregariam dezenas de milhares de talentos superiores? Sem as autarquias, em que porcarias desperdiçaríamos o dinheiro investido nos impostos, nas taxas e nas licenças que sustentam as autarquias?

As autarquias apanham as migalhas caídas da mesa “centralizada” e completam o serviço prestado pelo governo e devidas metástases. Não fossem elas, sobraria um bocadinho de espaço para o português respirar, sentir-se autónomo e, subitamente atarantado, desatar às cabeçadas contra um poste. Graças às autarquias, não sobra espaço. Graças a Deus, e independentemente das ideologias, a conversa das “autárquicas” não se desvia do que a câmara fez ou fará, do que devia ter feito e do que deverá fazer, das “ajudas”, dos “apoios”, dos “projectos” e dos “protocolos”.

Em Portugal, há imensa vida para lá do défice. Não há vida é para cá do Estado, que incansável vela e zela por nós, eleitores. O poder aprecia. Os eleitores apreciam. Tudo está bem. Resta decidir o voto. É muito difícil, já que, do alto das respectivas aptidões, cada partido concorre a pastorear os desamparados eleitores. Mas não é muito difícil, já que cada partido, salvo o PS, acaba por ser uma imitação do PS, a força que reúne e aperfeiçoa todas as maravilhas descritas neste humilde texto. Se a ideia é tomar o cidadão por um palerma inimputável, ninguém o toma como o PS. E o cidadão agradece.

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