terça-feira, 28 de setembro de 2021

Troquem a psicologia por banho de pipoca


Ao que parece, a busca pela vagueza se tornou método científico. Bruna Frascolla para a Gazeta do Povo:


Desde a sociologia da ciência, é comum colocar em questão as características pessoais do estudioso como algo capaz de interferir no objeto de estudo. O leitor torcerá o nariz por causa da vulgata relativista que tomou conta da área: basta dizer que a ciência é feita por homens brancos cis hétero para concluir que a Ciência é supremacista branca, machista e lgbtquiabofóbica. E, depois de dizer tudo isso, esse povo endossa as autoridades que, em nome da Ciência, nos mandam tomar mil doses de vacina experimental. Eu queria muito que banho de pipoca fosse considerado um saber baiano tão legítimo quanto o eurocêntrico, e que no passaporte sanitário do estado houvesse as opções: AstraZeneca, Pfizer, Coronavac, Janssen, Obaluaê.

Mas, para convencer o leitor de que a empreitada é legítima, informo que existe uma área de pesquisa chamada “suicidologia”. Uma coisa é a pessoa resolver passar a vida estudando moluscos; outra, estudando suicídios. É impossível que o objeto de estudo desses não tenha relação com a saúde mental da maioria das pessoas que o escolhem. Assim, uma boa questão epistemológica é pensar em áreas que são, pela natureza do seu próprio objeto, para-raios de maluco.

Pensei nessas coisas ao ler uma matéria do principal jornal baiano sobre suicídio. Eis a manchete: “Machismo que mata homem: eles são oito em cada dez vítimas de suicídio na Bahia”.

Taxas de suicídios de homens e mulheres por 100.000 habitantes nos estados da federação.| Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde

Detetive progressista

Imaginemos um Sherlock Holmes progressista, e logo concordaremos que trabalho de polícia é bobagem. Ao se deparar com o corpo de um gay, o detetive sabe quem é o autor do crime: a Dona Homofobia Estrutural. Se o corpo for de um negro, quem matou foi o Seu Racismo Estrutural. Caso o corpo fosse de uma mulher, aí a coisa se complicava um pouco, pois se trata de “feminicídio”, cuja culpa é sempre de algum homem particular. Eu achava que o Seu Machismo Estrutural não constasse na lista de suspeitos do Sherlock progressista. Mas agora vemos que consta, sim: quando um homem se mata, a culpa é do Seu Machismo Estrutural. Como se vê, a família Estrutural é cheia de serial killers, todos muito conhecidos pelo detetive progressista.

Vamos à matéria: apresenta-se como uma curiosidade especialíssima o fato de 82% dos suicídios registrados na Bahia serem de homens. Ora, qualquer um que dê uma olhadela no tema do suicídio sabe que a maioria dos suicidas é composta por homens; assim, de admirar seria se a Bahia tivesse uns 50% de suicidas homens. A matéria segue então o curso natural, que é relatar o fato geral, que mostra que a Bahia está dentro do esperado. Pois bem: e por que a maioria dos suicidas é tipicamente homem? “Mas esse está longe de ser um retrato só da Bahia. Em 2019, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) divulgou um relatório sobre como a masculinidade tóxica influenciava a saúde dos homens nas Américas. Pelas construções sociais sobre a masculinidade, a expectativa de vida dos homens em todo o continente americano chegava a ser 5,8 anos menor do que as mulheres. Assim, um em cada cinco homens morre antes dos 50 anos.”

Busca pela vagueza

Não só apareceu a tal toxina da masculinidade para matar os homens, como ainda se lançou o suicídio num bolo de causas da redução da expectativa de vida masculina nas Américas. Nas Américas há guerrilha de facções narcotraficantes. Será que isso não tem nada a ver com a queda da expectativa de vida dos homens? Homens são mais propensos a morrer de ataque cardíaco do que mulheres, será que isso também não explica algo? No Brasil patriarcal açucareiro descrito por Freyre, as mulheres viviam menos do que os homens por causa das mortes de parto. Como explicar isso sob a chave da masculinidade tóxica? Os homens viviam mais do que as mulheres porque faziam transfusão da toxina para as esposas?

A obviedade da diversidade das causas é reconhecida pela matéria: “O documento citava o suicídio, ao lado de outras causas, como homicídios, vícios e acidentes de trânsito, como uma das principais razões para isso.”

Ao que parece, a busca pela vagueza se tornou método científico. Na época do racismo científico, os estudiosos dessa corrente olhavam para a população brasileira pobre, subnutrida e doente, e apontavam o fato de serem mestiços. Pronto: estava encontrada a causa. Se Carlos Chagas pensasse do mesmo jeito, nunca descobriria que alguns mestiços morrem com o coração inchado. Tem mestiço que morre de coração inchado, que morre de facada no bucho, que morre de tísica, que se suicida. Por que morrem? Mestiçagem estrutural. Mestiçagem tóxica. É ridículo, mil vezes ridículo. Justamente por ter índole de cientista, Carlos Chagas isolou o problema que ele queria averiguar – o coração inchado – e descobriu uma causa nada vaga e muito específica para o problema.

Resolver os próprios problemas

O Correio ouviu uma suicidóloga da Secretaria de Saúde da Bahia, a qual contou a sua própria história ao mesmo tempo em que apresentou as causas da prevalência de homens entre os suicidas.

Era uma vez um homem com transtorno bipolar que se recusava a ir a psiquiatras. Esse homem tem um segundo casamento e filhos desse segundo casamento. Diz que prefere assassinar a família a vê-la passar necessidades. Quando aparecem problemas financeiros, assassina mulher e filhos antes de se matar. A filha mais velha, do casamento anterior, é a suicidóloga ouvida.

“Ele não tinha buscado ajuda psicológica ou psiquiátrica. Acreditava que os medicamentos prescritos pelo cardiologista, um amigo da família, seriam suficientes para qualquer coisa - ainda que o profissional o encaminhasse para a psiquiatria. Mas ele nunca aceitava.” Será que é porque doenças psiquiátricas são um estigma? Não, é por causa do patriarcado: “Sob a capa machista do patriarcado que não pode falhar, não pode deixar de sustentar ou de prover, ele sucumbiu à doença. […] A masculinidade tóxica, na verdade, assassina a saúde mental do homem.”

O Seu Racismo Estrutural volta

A matéria ouve mais autoridades e as opiniões são de deixar o cabelo em pé. Uma delas diz: “ ‘Outra população para se considerar é a população negra, que passa a vida sofrendo o racismo estrutural. Já os homens sofrem também porque o discurso capitalista nos impõe que a gente não pode fracassar, nem errar. Tem que ser macho’ afirma a psicóloga Soraya Carvalho, coordenadora do Neps [Núcleo de Estudo e Prevenção do Suicídio, vinculado à Secretaria de Saúde da Bahia].” Agora pronto: os homens se matam por causa do patriarcado e do capitalismo. Melhorar a saúde mental dos homens, só depois da Revolução Comunista. E a gente paga para ter especialista em saúde mental cuidando da população assim. Eu juro para o leitor que me torno, cada vez mais, uma defensora de banho de pipoca. Se temos psicólogos desses, é melhor demitir tudo e botar pai de santo dando banho de pipoca. Mal, não faz. E ainda é afrocentrado.

O caráter simplório desses “estudiosos” é revoltante. Se o Racismo Estrutural mata, então é causa do suicídio de negros. A psicóloga sequer se dá ao trabalho de questionar se os negros se suicidam mais do que os brancos, porque se é negro, o Racismo Estrutural matou e pronto. Mas a verdade é que o perfil epidemiológico mais completo dos suicidas brasileiros coloca os brancos à frente dos “negros”. Aspas, porque o documento segue uma maracutaia estatística que consiste em considerar que “negro” significa o somatório de pretos e pardos. Entre 2011 e 2015, a taxa de homens suicidas a cada 100.000 habitantes, dividida por cor, era: 9,5 para os brancos, 7,6 para pretos + pardos e 3,8 para amarelos. (Os homens indígenas têm, de longe, a taxa mais alta: 23,1.) Entre as mulheres, o “pódio” do suicídio segue a mesma ordem, embora a mortalidade seja maior.

Ao menos o boletim epidemiológico botava a Bahia entre os estados com menos suicídios por 100.000 habitantes. Acho mais fácil atribuir isso ao banho de pipoca do que à Secretaria de Estado de Saúde da Bahia.

2 comentários:

Anônimo disse...

A última coisa de que precisamos é um Sherlock Holmes progressista.

Anônimo disse...

Pois é, vivemos tempos líquidos, como disse um psicólogo progressista. Seria trágico se não fosse cômico. Fico imaginando se Jesus aparecesse por aqui, nestas épocas mileniais, e dissesse: "Deixai vir a mim os pequeninos". Já posso ouvir os adjetivos: Pedófilo! Machista estrutural!