domingo, 24 de outubro de 2021

Escândalos na saúde mostram como há médicos medíocres e mal formados


Com uma faculdade a cada esquina, qualquer família que pagar pode ter seu filho graduado em medicina. Luiz Felipe Pondé via
FSP:


Qualquer família de classe média alta do Brasil que conseguir pagar 10 a 15 mil reais por mês para uma faculdade de medicina pode ter seu filho médico à vontade.

Medicina ainda é a profissão de maior valor para as famílias, apesar de que o glamour associado a ela, quando olhado de perto, já é distante do cotidiano dos médicos.

Entrar em medicina, devido à gigantesca competição e ao difícil cotidiano da formação, sempre significou que os jovens na carreira eram acima da média em termos cognitivos e de resiliência.

Entrar no estresse da competição para se formar médico sempre foi um indicativo de um maior conjunto de skills profissionais, mesmo que, com o passar do tempo, o desgaste do cotidiano de trabalho acabasse por aniquilar muitas vezes as promessas de inteligência acima da média que havia na partida. A vida como ela é faz tudo ficar como ela é.

Claro que a medicina continua sendo uma grande carreira, cheia de profissionais grandiosos, responsáveis e que salvam vidas, como vimos na pandemia —hoje, no mundo das redes sociais e da estupidez que assola a recepção dos conteúdos do pensamento público, fazem-se necessários sempre reparos óbvios como este.

Feito esse disclaimer, o que essas faculdades que custam de 10 a 15 mil reais mensais têm a ver com os escândalos recentes de operadoras de saúde de baixo custo?

De partida, elas indicam que a única seleção nessas faculdades de medicina de ocasião é quem pode pagar essa grana. Nem a qualidade do curso nem a qualidade de quem entra nele importa muito.

Desde o governo Fernando Henrique Cardoso, a "democratização" das faculdades de medicina inundou o mercado da formação na carreira. Esse fato, por sua vez, inundou o mercado com profissionais medíocres e mal formados.

Hoje, há uma faculdade de medicina em cada esquina, quase na mesma quantidade de supermercados e quitandas. A intenção dos governos, supostamente, era aumentar a oferta de médicos para ampliar o quadro do SUS, ,já que as boas oportunidades de emprego não assimilariam tamanha "democratização" na oferta de médicos, muitas vezes de qualidade bastante duvidosa. Mas nem tudo aconteceu como as "boas intenções" esperavam.

Pelas vias em que o mercado capta oportunidades, como sempre, investidores perceberam que aí estava uma grande oportunidade para abrir operadoras de baixo custo, empregando médicos jovens que mal conhecem medicina e que dificilmente conseguiriam espaço em instituições mais competitivas, identificadas com faculdades de medicina mais tradicionais e de maior qualidade histórica. A carreira médica sempre foi o topo da aristocracia profissional burguesa.

Resultado, uma massa de maus médicos correu para esse mercado que agora se faz objeto de escândalos.

Portanto, há uma "parceria" entre oportunistas nesse processo que vai além dos furos jornalísticos da CPI. Essa parceria reúne investidores no mercado da saúde, médicos mal formados em busca de carreiras e salários, agências reguladoras e associações de classe de comportamento duvidoso e muito marketing mentiroso —pura redundância. A saúde sempre foi uma área de exploração do grande capital e da grande corrupção, que costumam andar lado a lado.

O mercado de seguradoras sabe que ninguém quer segurados idosos com baixa renda, como é o caso da imensa maioria da população que precisa de segurança de saúde. Idosos custam muito caro para as seguradoras, daí o altíssimo custo da operação.

O nicho dos idosos tende a ser ocupado por operadoras e profissionais dispostos a manobras de baixo caráter ético na lida com o sofrimento e de teor técnico muito abaixo da média. Quanto mais medíocre o profissional, mais chance ele terá de crescer na instituição, já que ele aceitará as práticas mais absurdas.

O caso Covid tornou isso evidente, apesar de que nada mudará uma vez esquecida a pandemia. O fundo da estrutura que gerou os maus tratos permanecerá em outros quadros que atrairão menos mídia. A vida não vale nada em quase nenhuma parte do mundo, apesar do heroísmo de alguns.

3 comentários:

mauri disse...

Pondé estudou medicina e não terminou o curso depois foi para filosofia. Talvez isto explique este texto azedo sobre os médicos. No Brasil tem 300 faculdades de medicina que formam perto 350 medicos por ano para uma população de 213 milhões é muito pouco. Se os cursos são fracos devemos culpar a educação em geral, na qual o Pondé faz parte, é professor.

Carla Micheline Thomazi disse...

Pondé vacilou neste artigo, baseado na falácia de que "há uma faculdade de medicina em cada esquina, quase na mesma quantidade de supermercados e quitandas", absurdamente exagerado para fundamentar o argumento dele. Não temos mais que cerca de 300 faculdades de medicina no Brasil (305 em 2019, para ser exata, e acho pouca provavel que este numero tenha aumentado em meio pandemia) algo significativamente inferior ao número de "supermercados e quitandas". Não que eu discorde da ideia principal, mas não posso deixar de notar esta disparidade e a falta de cuidado com os critérios do argumento.

Anônimo disse...

João Gustavo diz:
Tema espinhoso . A area da saúde aqui no país(como muitas outras áreas) cresceu muito, mas com pouco eficiência e eficácia, talvez devido a péssima formação dada aos profissionais. Realmente são muitos profissionais que caem no mercado de trabalho com poucas qualificações, com dificuldades para exercer a profissão a contento. Mas não só em relação a idosos, mas na população como um todo, temos 2 medicinas que sempre vigoraram no país. A privada e a dos menos favorecidos economicamente(maioria), que depende de um SUS (estatal) com alta demanda e que não consegue dar conta dessa demanda sempre em alta. Mas me parece que muitos planos privados de saúde também passam por problema similar, não conseguindo dar bom atendimento aos seus associados.