quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Ivo Barroso e o relógio das horas do destino


Meu querido Tio Ivo foi também um pai, um mestre e um norte moral e intelectual para todos que tiveram a honra de ter as portas da alta cultura abertas por ele. Alexandre Borges para a Gazeta do Povo:


Ivo do Nascimento Barroso, poeta, ensaísta, crítico e tradutor, nasceu em 25/12/1929 em Ervália (MG). Ele não teve filhos. Dois mil anos antes, nascia Aquele que também não teve filhos biológicos, mas adotou todos nós e, em nome do Pai, redimiu nossos pecados e nos abriu as portas do céu para a salvação.

Meu querido Tio Ivo foi também um pai, um mestre e um norte moral e intelectual para todos que tiveram a honra de ter as portas da alta cultura abertas por ele. Foi um dos poucos polímatas que merece o reconhecimento de possuir uma "cultura enciclopédica", já que, além das obras poéticas e traduções, foi também colaborador das enciclopédias Delta-Larousse (com Antonio Houaiss), Mirador e Século XX (com Carlos Lacerda).

É deste gigante que o Brasil se despediu em 05/10/2021, após 91 anos de uma vida exemplar e que marcou para sempre a cultura brasileira, quando seu enorme coração deu a última batida. Posso testemunhar como ele estava animado, atualmente trabalhando numa nova tradução de "Alice no País das Maravilhas", entre outras obras, dado seu perfeccionismo que levava a que voltasse regularmente a antigas traduções para refazê-las.

Seu apuro técnico e seu compromisso verdadeiro com a qualidade final da tradução ficou notória quando se engajou na tradução da obra do poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891), o gênio que produziu alguns de seus clássicos ainda na adolescência, o que fascinava Ivo Barroso particularmente. "Com menos de 20 anos, Rimbaud esgotou todas as possibilidades da poesia e passou a reinventá-la, é assombroso", como me disse numa de nossas longas conversas.

Sobre meus projetos literários, muito atrasados e que ele acompanhava de perto, ele me disse: "sobrinho, eu li mais de 300 obras sobre Rimbaud, fui à Paris conversar com os maiores especialistas sobre ele e passei dias lutando com palavras específicas. Um dia, um dos mais célebres acadêmicos franceses e um dos maiores conhecedores de Rimbaud me disse que o conhecimento sobre ele é ilimitado e existe um momento em que o escritor tem que ter a coragem de colocar um ponto final do livro e publicar. Sobrinho, não seja perfeccionista como eu, publique". Lamentarei para sempre não ter aceitado seu conselho com ele em vida. Todos os seus 300 livros sobre o gênio francês foram posteriormente doados ao Centro Cultural Banco do Brasil.

É impossível falar de Ivo Barroso sem citar seu casamento de mais de sete décadas com Sílvia Alves Barroso, uma das maiores cantoras líricas da história brasileira e que, numa honra que as palavras não podem traduzir, cantou no casamento dos meus pais em 1967 e depois no meu em 2002. Eu confesso que, mesmo fascinando com o canto da tia Sílvia, não conseguia tirar os olhos de Tio Ivo. Mesmo depois de tantos anos, ele tinha um amor e uma admiração contagiante e transbordante por ela, sua companheira até seu último dia. Um exemplo para todos os casais que se abrem ao matrimônio, um dos mais importantes e fundamentais sacramentos católicos que viveram como ninguém.

O tempo sempre foi um tema comum do poeta. "E sou o tic-tac de um relógio de parede, triste e sozinho na penumbra de uma sala", escreveu em 1947. No mesmo ano, publicou um dos poemas mais contundentes sobre a ação do tempo:

A MORTE DAS HORAS

Ivo Barroso


"Quando passar o Tempo que me resta

No relógio-das-horas-do-Destino,

Meu pobre coração, qual velho sino

Que à tarde azul melancolia empresta,

Há de cantar, num dobre vespertino,

Toda a tristeza que não manifesta!

… Ah! um sol de outono a minha vida cresta!…

Adeus, último raio purpurino!…

Sofro a angústia das horas mortas… Peno-a

No caminhar das horas para a hora

Final… E o coração, cansado músculo,

Se alvoroçando na esperança ingênua

De ressurgir inda uma vez na aurora,

Sabendo que é seu último crepúsculo!…"

Descanse em paz, tio Ivo. O salmão que você preparava pessoalmente para nós para o próximo segundo será degustado como sua última ceia. Não foi Ivo que perdeu a vida, foi o Brasil que perdeu você.

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