domingo, 28 de novembro de 2021

Quem cala consente. E quem fala?


Não apenas as pessoas têm biografias, nem apenas os dentes têm raízes, também os têm as palavras. Deonísio da Silva via Oeste:


Numa das pestes de Lisboa, inspirado em episódio bíblico tido por apócrifo, um pintor belga tratava de antigas ameaças à mulher ainda presentes nesta outra pandemia

Dois dos três homens a acusavam de adultério e ela dependia do terceiro para não ser morta a pedradas. A pintura a óleo sobre madeira de carvalho mostra uma mulher jovem e linda trajando um longo vestido vermelho com dobras. São quatro pessoas e três delas olham para um juiz sentado num trono com dossel.

O Profeta Daniel e a Casta Susana, de Francisco Henriques, 1518 

Quer dizer, era no tempo em que homens julgavam as mulheres sem clemência alguma por qualquer coisinha. Faz muito tempo que ocorreu isso? Sim, foi há milhares de anos, bem longe do Brasil, mas muitos feminicídios estarão ocorrendo nesta pandemia no país que ocupa o desonroso quinto lugar entre nações que mais assassinam mulheres no mundo.

Todos os personagens do quadro morreram: a ré, os acusadores, o juiz. Poucos anos depois de concluí-lo, morria em Lisboa, levado pela peste de 1518, também seu autor, o belga Francisco Henriques. Obedecendo a seu mecenas, o rei português Dom Manuel, o artista entrara na onda de representar temas bíblicos para atender a encomendas das Cortes católicas, ainda mais quando inspirados em episódios considerados apócrifos pelos protestantes, por causa da Reforma, contra a qual já se organizava o movimento da Contrarreforma. Francisco Henriques retratou, então, a absolvição que dera à história um final feliz para a acusada e punira duramente os acusadores.

A peste que levou o pintor ia e voltava naqueles anos e foi devastadora. Ele quis sair de Lisboa, mas o soberano obrigou-o a permanecer e ele ficou. Afinal, manda quem paga e obedece quem faz o trabalho.

Todavia o povo continuava vivendo, mulheres concebiam, crianças nasciam, tanto que alguns anos depois nascia o maior poeta português, nosso velho conhecido dos anos de formação. Dentre os leitores desta revista, certamente há quem se lembre das dificuldades impostas por seus versos quando éramos obrigados a pôr em ordem sintática esclarecedora o que ele contava na primeira estrofe de Os Lusíadas de modo tão arrevesado.

Sim, leitores, falo de Camões, que no Brasil é ainda muito popular e designa conhecido prato com um ovo sobre o canto do bife para lembrar que o poeta perdeu um dos olhos em batalha travada em Ceuta, enclave espanhol situado no Marrocos, na África.


A etimologia ensina que, mesmo contrariando o significado de origem, o verdadeiro sentido fica mais claro quando descobrimos o que a palavra significou no passado. Ceuta é um desses casos. Veio do latim Septem, sete, em razão dos sete pequenos montes simétricos da cidade e virou Septa ou Ceuta depois do domínio árabe e por fim Ceuta. Não apenas as pessoas têm biografias, nem apenas os dentes têm raízes, também os têm as palavras ditas e escritas entre uma peste e outra, entre uma guerra e outra. Enfim, pela vida afora, desde as primeiras, apenas balbuciadas, até as últimas, talvez sussurradas, quando dá tempo.

O quadro trata da ameaça de um feminicídio avant la lettre, afinal evitado. As criaturas representadas são ainda mais famosas e conhecidas do que seu criador. Os quatro personagens em destaque podem ser identificados neste trecho do best-seller número um do mundo, a Bíblia, uma palavra vinda do grego Biblos, nome original da atual Beirute. Foi por isso que o livro se chamou biblos: ali era embarcado o papiro para fazê-lo.

O texto bíblico conta que a verdade venceu a mentira, tema também de uma marchinha de Ary Barroso, lançada no Carnaval de 1940: “Quando conheci a casta Suzana,/ Nas areias de Copacabana…/ Era namorada de um “Chinês”/ Mas olhava assim para um “Japonês“.

A marchinha e o texto bíblico revolvem temas e problemas de um julgamento. Uma mulher judia chamada Suzana, cujo significado em hebraico é lírio, casada com Joaquim, homem rico e poderoso, tem o costume de banhar-se no pomar quando o marido sai de casa. E o faz habitualmente acompanhada de duas criadas, que entretanto dispensa naquele dia. Dois voyeurs, já anciães, a surpreendem e exigem troca de favores sexuais, do contrário dirão ao esposo que ela estava em atos libidinosos com um jovem.

Ela é denunciada ao marido por recusar a bandalheira e está prestes a ser condenada ao apedrejamento quando um rapaz grita que é preciso conferir se os velhos falam a verdade, pois a mulher pode ser inocente.

Separados, os dois chantagistas têm de responder sob qual árvore Suzana estava com o suposto amante. Um responde que é uma árvore pequena. Outro que é um enorme carvalho. No texto grego, são feitos trocadilhos entre os étimos de lentisco e de carvalho com os verbos cortar e serrar.

Este episódio foi utilizado por apologistas para ilustrar o provérbio “quem cala consente” (silentium videtur confessio). Entretanto, ao correr dos séculos, o seu contrário prevaleceu, uma vez que o silêncio de Suzana foi interpretado também como eloquente, por desdenhar e fazer muxoxo da calúnia.

Convém ler ou reler e refletir sobre a sabedoria contida no frasco proverbial. Suzana diz em alta voz, depois de ser condenada à morte: “Deus sabe que esses dois estão mentindo e que eu sou inocente”. O jovem Daniel revolta-se com o que pressente ser uma injustiça e pergunta aos juízes: “Vocês estão loucos? Vão condenar sem fazer pergunta nenhuma aos acusadores?”. Então, ele é convidado pelos juízes a sentar-se com eles: “Vem pra cá, Deus te deu o privilégio da velhice!” O resultado é que enfim o Bem vence o Mal, e os dois chantagistas são punidos.

Quando a atual pandemia passar, saberemos de muito mais coisas, entre as quais o que pintavam e escreviam artistas e autores recolhidos como se fossem todos mônadas de Leibniz.

Enquanto isso, esperemos que, à semelhança dos caluniadores da casta Susana, os detratores da honra alheia, tão atuantes nesta pandemia, também sejam julgados e recebam o castigo prescrito de acordo com as leis. Afinal, o que se fez na recente CPI da Pandemia não poderia sequer ser considerada atividade legislativa, quanto mais de justiça.

Deonísio da Silva é professor e escritor. Colunista da Revista Oeste, sua obra é publicada no Brasil e em Portugal pelo Grupo Editorial Almedina

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