domingo, 23 de janeiro de 2022

Não são as virtudes que movem o mundo, mas os vícios.


Verdades ancestrais que guiam os modos de conduta são o antimarketing. Via FSP, a coluna de Luiz Felipe Pondé:


Nem tudo muda na velocidade dos comerciais de banking. Ofereço aqui algumas ideias que podem parecer, à primeira vista, estranhas. São verdades ancestrais —logo, o antimarketing— e que as pessoas sabem que funcionam como modo de conduta. São verdades banais, cotidianas.

Não se deve meter a colher na briga de marido e mulher. Disclaimer: refiro-me aqui a brigas que não são violência doméstica, antes que algum inteligentinho de plantão venha encher o meu saco.

Não se meta em briga de casal porque a relação entre duas pessoas tem inúmeras camadas superpostas que não autorizam uma interpretação simplista do tipo que melhores amigas costumam dar. E mais, é muito provável que o casal se resolva, e você fique com cara de idiota intrometida, e, quem sabe, sua amiga, que você achou que estava ajudando, comece a suspeitar que você está mesmo é interessada no homem dela.

Cão que ladra não morde. Batata!, como diria Nelson Rodrigues. Quem muito fala nada faz, quem é silencioso é mesmo o perigoso. Para o bem e para o mal. Como se dizia no tempo em que homens se interessavam por mulheres —antes que muitas delas se tornassem um tanto tóxicas—, quem come quieto come duas vezes. Na era do marketing, todo mundo é cão que ladra, mas não morde.

Quem com porcos se mistura, farelo come. Frase típica de pais quando ter filhos valia a pena. A frase sempre era recebida pelos filhos como uma forma de preconceito. Claro, nem sempre os pais acertavam, mas, suspeito, inúmeras vezes acertavam, até hoje. Seu amigo come de boca aberta, anda sujo, não dá bom dia, parece não ter mãe em casa e não consegue dizer no que o pai trabalha? Batata! Rolo à vista.

Aliás, quando alguém não consegue dizer no que trabalha numa frase curta e com verbos e substantivos claros, e, ao contrário, usa muitos adjetivos e advérbios, você está diante de dois casos prováveis. O primeiro é que a pessoa quebrou, já passou da idade de começar de novo —e hoje essa idade é cada vez mais jovem— e ela está te enrolando por vergonha ou porque quer achar um otário —ou otária— para investir nela.

A outra possibilidade é pior ainda. O cara é um bandido, picareta, corrupto. Fuja. Não existe nenhuma forma de atividade humana tão interessante ou peculiar que não caiba numa frase curta com, no máximo, um verbo e dois substantivos.

O pior é sempre o mais simpático. Ou numa forma diferente: o picareta é sempre o mais simpático, divertido, falante e, aparentemente, tem a capacidade de dominar o salão. Uma das verdades mais antigas em termos de caráter é que a virtude é tímida e discreta, nunca se anuncia ao entrar no ambiente. Raramente pessoas incomuns que valem a pena na vida parecem tão incomuns.

Deus ajuda a quem cedo madruga. Outra verdade dura de engolir. Acordar cedo, ter disciplina, força de vontade, foco, saber que na vida a felicidade é uma raridade, é para os melhores. Temperamento é destino. Diga o que quiser, a fisiologia pode decidir o futuro da sua vida em grande medida.

Se você tem um vizinho que nunca tem os mesmos carros na garagem, caras as mais diferentes saem da casa dele o tempo todo, e se, a princípio, ele se mostra excessivamente simpático, cuidado. Se você prestar atenção, provavelmente, descobrirá que sua área de atividade é um tanto ilegítima.

Os filhos da minha filha meus netos são, do meu filho, serão ou não. A relação que se tem com os netos depende fundamentalmente da mãe deles. Nunca brigue com a sua nora ou ex-nora porque a chance de você ser uma mera visita na vida dos seus netos será enorme. Quem negar esse fato é um mentiroso.

Todo mundo tem seu preço. E quem diz que não tem, é o mais barato de todos. A vida é dura, injusta, imprevisível, brutal, cruel, grande parte de todos os adjetivos opostos aos que acabei de citar se compra com dinheiro. A desgraça nos põe todos à venda em algum momento.

Enfim, como dizem os franceses, procure a mulher e você encontrará onde o rolo começou. Dinheiro, poder e sexo movem o mundo desde sempre. Não são as virtudes que movem o mundo, mas os vícios.

Um comentário:

Anônimo disse...

E eu crente que ele ia falar d'"A fábula das abelhas ou Vícios Privados, Benefícios Públicos", de Bernard de Mandeville, que influenciou Adam Smith!