domingo, 26 de junho de 2022

Em Houellebecq também há redenção e esperança


Uma das dificuldades de uma narrativa longa é blindá-la do que se passa fora do escritório, e Houellebecq, em "Aniquilação", imiscui-se em demasia. Refletimos sobre a reflexão e não a história. Ana Bárbara Pedrosa para o Observador:


Chegou agora a Portugal, poucos meses após a publicação em França, o romance Aniquilação, de Michel Houellebecq. Mais uma vez, o autor francês traz através da literatura uma posição sobre o Ocidente, sempre marcada por uma visão de declínio.

O romance começa com a divulgação de uns vídeos online que se tornam virais. Neles, o ministro de Economia de França é guilhotinado. Os especialistas de imagem digital não conseguem perceber como foram as imagens editadas, afirmando que o vídeo parece real. Logo a seguir à divulgação, começam os atentados terroristas. França lança-se ao pânico, começa uma campanha desesperada para as eleições presidenciais e ali, no meio da ficção, estão figuras da política europeia actual.

A ligar os fios da narrativa, está Paul Raison. Alto funcionário ministerial, está em plena meia-idade e parece acomodado a coisa pouca. Houellebecq descreve-o como habituado à miséria afectiva e, como não podia deixar de ser no autor francês, à miséria sexual também. Este último já se torna cansativo na prosa de Houellebecq, já que as personagens vêm sempre maquinais, sempre presas ao mesmo grilhão, sempre vítimas das circunstâncias. Mesmo neste romance, em que por momentos parece que a narrativa vai escapar para outro lado, o assunto pontua-a em demasia, e também vemos a mercantilização de mulheres como omnipresente nos romances do autor. Em qualquer situação, de forma inteiramente gratuita, lá aparecem prostitutas só para maquilharem um parágrafo. E, como sempre no autor francês, parecem tão interessadas – genuinamente interessadas – nos homens, potenciais clientes, quanto estes nelas. Estas cenas aparecem muito a pontapé, sem qualquer papel na leitura que não seja o de acordar o leitor para mais do mesmo. Ao oitavo romance de um autor, já se espera mais alcance e menos repetição, assim como menos robotização. Houellebecq é um dos casos em que o ego do desejo masculino se escancara de forma mais evidente. A visão masculina aparece sempre como verdade absoluta, não há como o autor perceber que não tem ponta por onde se lhe pegue.

Voltando a Paul Raison, cabe ainda dizer que é casado com Prudence, agora vegan e adepta do Wicca, um movimento religioso neo-pagão. Os dois vivem em Paris, cada vez mais separados. Raison vai permitindo à narrativa entrelaçar-se, juntando-lhe os dois planos. O público e o privado mesclam-se, e os momentos de thriller político são entrelaçados com a banalidade da vida.


O que é novidade neste livro de Houellebecq, que nos tem habituado à sua repetição até à exaustão, é a existência da redenção e da esperança. As personagens, ainda assim, vão sendo resistentes à empatia do leitor, já que parecem conservadas no formol dos pontos estratégicos necessários aos pontos que o autor às vezes mete no livro à martelada. Assim, o papel do leitor torna-se largamente passivo, sendo o repositório de informação sobre elas. Para mais, Houellebecq é não raras vezes excessivamente palavroso, tendo uma tendência para explicar até não restar mais nada e, com isso, para explicar até já ninguém se lembrar do osso. Não se percebe bem se tal parte de um desejo de calibrar a prosa ou de mascarar inseguranças sobre a construção das personagens. O que se percebe é que, para o leitor, sobra pouco no que concerne à acção da leitura. Não bastasse e ainda se nota, como em livros anteriores, que as personagens são meros veículos – meras desculpas – para Houellebecq levar avante a sua visão do mundo. Assim, o autor francês é incapaz de sair de si próprio, construindo uma coisa à margem.

Com esta estratégia, ao leitor é por vezes difícil deixar-se entrar na narrativa, já que a narrativa vem sempre de braço dado com a condução para a conclusão que Houellebecq quer. Ao mesmo tempo, nota-se a instrumentalização da literatura para se chegar ao fim procurado pelo autor. Com esta estratégia, o romance tem tendência para se transformar numa resposta, ao invés de abrir perguntas. Fazendo-o, também fecha os caminhos em vez de os abrir.

Houellebecq tem ainda tendência para contar em vez de mostrar, e isso por si já é suficiente para abrir um fosso com o leitor, que não vê as personagens em acção. Assim, o tempo com elas reduz-se, e é difícil confiar na voz que narra. Ao mesmo tempo, nota-se a facilidade dessa estratégia narrativa, já que basta dizer sem criar os mecanismos para que as acções criadas influam nos caminhos seguintes. Se o autor diz que “a Paul parecia que X”, o leitor terá de acreditar que a Paul parecesse que X, e isso impede-o de ver o momento em que a crença em X se formou ou se provou.

Ao mesmo tempo, à medida que vamos vendo uma ideia da França actual pelos olhos de Paul, também vamos vendo, e é isso que Houellebecq ainda consegue fazer bem, uma crise de enraizamento. A França actual parece querer fazer-se por agentes que não lhe pertencem nunca e o presente parece não só descartável mas também desprendido. Assim, o alto funcionário do Estado parece também viver à margem do aparelho do Estado: pertence-lhe, mas sente-lhe asco. Cumpre um papel enquanto finge não fazer parte da peça.

Com uma estrutura relativamente sólida, o romance tem o problema habitual: a narrativa sofre sempre às mãos da reflexão. O autor reflecte, o leitor lê, e por isso a reflexão posterior vem já descaradamente maculada pela reflexão dada, sendo a leitura um acto de responder a uma reflexão e não a uma história. Uma das grandes dificuldades de uma narrativa longa é blindá-la do que se passa fora da janela do escritório, e Houellebecq imiscui-se em demasia. Ao fazê-lo, domina demasiadas vezes o cenário sobre o qual devia ter domínio ao ponto de se conseguir ocultar.

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